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trato-me por tu


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terça-feira, novembro 25, 2003

ESGARES DE UM INIBIDO QUALQUER

(num dia qualquer)
Estava ali aquele homem que via todos os dias e era como se não visse, mais um homem entre os homens e as mulheres que não se vêem em dias de todos os meses, às vezes os mesmos homens e mulheres uma vida inteira.
Eu costumava ficar à porta do prédio, do lado de dentro do vidro e com a porta emoldurada por um bronze imemorial a servir de enquadramento, de pé a contemplar. Os homens e as mulheres lá iam, sucedendo-se, umas para um lado, uns para o outro. Mais logo, voltavam. Todos. Era como se formassem linhas e linhas pespontadas à ordem no chão de uma rua anónima de uma cidade sem templos. A pouco e pouco, o sombrio ponteado desaparecia deixando a descoberto, cavada com paciência, uma imensa enfiada de vazio.
E ali estava ele, arranjando o rosto em trejeitos, esgaravatando a multidão ausente como se visse.
No céu as nuvens preparam-se e amontoam-se. No vidro reflectem-se esgares que se vêem e fogem. Até amanhã.

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M83
Farewell, goodbye

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