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trato-me por tu


You don't even know me - use your illusion: trato_meportu@hotmail.com

sábado, novembro 01, 2003

MANOBRAS

Cheguei tarde a casa. Nem sei que horas eram, passaram. A porta a abrir-se foi um estrondo, um estrondo solitário. As luzes estavam todas apagadas, sem as suas sombras, sem caprichos. Apenas réstias dos artifícios da cidade atravessavam timidamente a casa escura como projecções coadas por fantasmas que se tornavam nítidos, juro, de um certo ângulo. Réstias. Apenas.
Deixar tudo como está e sentar-me de cansaço. Primeiro descobrir o volume ao sofá, depois sentar-me. Fechar os olhos aos apenas que teimam, imaginá-los mais, espessos, este sofá, conhecê-los então, como está? Depois, então, deixá-los.
Repetir este exercício vezes e vezes até que lhes saiba os nomes, a cor do cabelo, a direcção do olhar, o costume do linguajar, a ignorância, a sapiência: chegar tarde a casa, deslindar a actividade secreta das projecções, das habilidades de uma cidade fantasma, convocá-la na concavidade do olhar cerrado, tratá-la por tu, como estás?
Um dia, quando sair cedo bem cedo de casa, dia bem dia, a cidade será uma aparição, movendo-se majestosamente por entre as apenas réstias, movendo-se devagar, de olhos fechados, a falar sozinha e o mundo todo espantado. O que é que fizeram à nossa cidade, perguntarão assustados de mãos erguidas a segurar as cabeças feitas tontas.

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Farewell, goodbye

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