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trato-me por tu


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segunda-feira, dezembro 29, 2003

LEMBRAR RIR



Noite no último dia de um mês de Verão. Sentado a uma mesa vazia, de costas para o último dia, para a rua silenciosa e para os outros que restam, virado para o horizonte imediato da parede, sob o céu rasante e escuro de um tecto fundido, um móvel que mal se vê com as tralhas e as folhas que parecem mortalhas cobrindo o que sobrou, uma fotografia imperceptível (tu?), outra, uma mala de viagem fechada, uma cadeira abandonada e um desgosto enorme.
Havia ainda ontem vida no andar de cima. Passos que pensava virem socorrer-me e não vinham mas ainda assim continuavam e eu também a pensar. Os teus passos eram leves? Mais leves? O que é que isso importa? Não eras.
O homem que vem todas as noites e depois se põe a falar sozinho num frenesi interminável não veio hoje. O silêncio é mais alto. Não há bêbados. Não há esquinas enviesadas nesta noite. Não há.
É sexta-feira e isto vai custar a passar. De vez em quando levanto-me e debruço-me sem forças no parapeito da janela para fechar os olhos e ouvir o silêncio maior. Podia sair de casa e ver o rio. Podia andar pela baixa sinuosa e curva desta cidade, perder-me a olhar para os gatos deitados nas escadarias quebradas, ou simplesmente ver o rio que hoje também há lua e cheia, linda. É o rio que quero ver. Enquanto não me levanto pergunto queres vir e levanto-me à pressa e saio assustado. Credo. Não sou religioso e não sei rezar, mas às vezes digo credo quando penso falar com outra pessoa e estou sozinho.
A majestade do teu riso perdura à volta da mesa. Só.

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M83
Farewell, goodbye

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