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quinta-feira, abril 08, 2004

MUITO PARA DIZER

Íntima Fracção – A Rádio no Meio da Noite

“É isto.” Os olhos, pontuados pelos acentos circunflexos da modéstia, querem acrescentar mais qualquer coisa às parcas palavras: “É – só – isto”. Desde Outubro de 1995 que Francisco Amaral realiza a “Íntima Fracção” na exiguidade do estúdio caseiro, “longe de tudo, de todos”. Já não há corredores escuros e estúdios repletos de maquinaria, os técnicos “do outro lado”, a azáfama dos jornalistas, o bulício das últimas. E também já não há “o incómodo” de ter que partilhar estúdios, ou os contactos forçados. Só um computador, um microfone, uma mesa de mistura e, em redor, o amontoado dos livros e folhas soltas. Discos, alguns; a maioria da música está armazenada no processador da máquina essencial. “É isto.” Como se o mistério fosse subitamente desfeito. Como se o conhecimento da matéria-prima ou dos esquissos de uma obra revelassem tudo e não houvesse mais nada. Ali, a aparente parcimónia de meios que contrasta com a profusão dos estúdios é sinónimo de intimidade, a condição “sine qua non” de um programa que, há quase vinte anos, tem como mote: “Pouco para dizer, muito para escutar e tudo para sentir”.

Uma torrente de palavras talvez não fosse suficiente para dizer o que é a “Íntima Fracção”, e Francisco Amaral prefere as mais certas. “É uma espécie de banda-sonora, uma composição.” Percebe-se que não vale a pena nomear títulos ou géneros. “ Não é uma emissão impositiva. Há espaço para os ouvintes construírem a sua realidade a partir do momento em que ouvem. É uma emissão sugestiva, um quadro negro.” Foi sempre assim. Desde a primeira emissão, na noite de oito de Abril de 1984, que as músicas se desfiam entre pequenos textos, para só no final das duas horas se saber o alinhamento segundo o nome das bandas ou dos autores, sem qualquer indicação quanto aos temas ou aos álbuns onde se encontram. A constância do formato, “o fio condutor”, também ajudam a compreender a longevidade do programa. Numa altura em que, cada vez mais, os meios de comunicação condescendem aos imperativos mercantilistas e os produtos se despersonalizam para se uniformizarem, parece paradoxal a permanência de um programa tão próximo do seu autor como o é a “Íntima Fracção”. “É uma parte de mim e uma terapia, até. Um equilíbrio. Às vezes reflecte um estado de espírito, outras tenta combatê-lo.” Uma necessidade, portanto. Do autor e dos ouvintes, dos quais muitos fizeram questão de o contactar, manifestando-lhe admiração e apreço. “Houve sempre ‘feed-back’. Enviam-me cartas, “e-mails”. Na altura em que o programa era realizado em directo nos estúdios, primeiro da Rádio Difusão Portuguesa (RDP), e depois da TSF, houve até pessoas que queriam assistir à emissão. E também “alguns contactos incómodos por parte de pessoas que queriam entrar na esfera do privado”.

Agora está devidamente resguardado. Sempre na companhia de Lak, o “rotweiller” bom, os últimos oito anos de gravações caseiras deram rédea mais solta à “obsessão pela perfeição” relativamente ao programa. “Não há um momento único de gravação. Há uma constante recolha de sons, uma planificação... E a selecção dos textos. Algumas emissões demoram meses a serem preparadas.”

Em 1984, quando era funcionário da RDP, na Antena 1, a direcção mostrou-se muito renitente em conceder-lhe apenas um dia para realizar a “Íntima Fracção”. “Não compreendiam porque demorava tanto a preparar uma emissão de rádio. Normalmente, levava-se uns discos, dizia-se umas coisas, e já está!” Após a transmissão do primeiro programa, a reacção da direcção foi previsível. “Diziam-me que a ‘Íntima’ era muito exigente”.

Na altura em que o programa foi pela primeira vez para o ar, Francisco Amaral tinha já um extenso passado repartido entre as Belas Artes e os meios de comunicação. “Tive sempre um fascínio grande pela imagem, pelo cinema e fotografia”. Licenciado em Arquitectura na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, que nunca exerceu, cursou também Realização Cinematográfica no Centro de Estudos Cinematográficos. A primeira curta-metragem que realizou, “sobre um pesadelo de alguém que estava para ir para a guerra no ultramar”, valeu-lhe, simultaneamente, um prémio no Festival de Marburg, na Alemanha, e a apreensão da fita pela censura. As suas primeiras emissões de rádio aconteceram em 1970, na Emissora das Beiras, com um programa bissemanal chamado “Vibração”. A partir daí foi conciliando actividades na rádio e na televisão. Em 1979 ingressou na RDP como locutor e, dois anos depois, foi seleccionado por concurso público para realizador na RTP-Porto. Na RDP chegou a fazer as emissões matinais. “Gostava de fazer programas da manhã. Sentia-me no mundo. Gostava de dar as primeiras notícias, a previsão do estado do tempo. Para isso contribuía o facto de o estúdio não ser interior e ter uma vista panorâmica sobre a cidade.” Entretanto, em virtude das sucessivas especializações em áreas como a História da Arte ou a Comunicação, iniciou também uma carreira de docente, quer no ensino secundário, onde leccionou, por exemplo, Geometria Descritiva, quer no ensino superior, onde é, a par de professor, coordenador do projecto ESEC TV, na Escola Superior de Educação de Coimbra. As aulas são, na sua opinião, a extensão necessária da qualidade de comunicador. “Aquilo que me faz dar aulas é a comunicação, a transmissão de ensinamentos.”

O fascínio da imagem terá sido herdado do pai, “um entusiasta do cinema”, que tinha uma máquina de filmar com a qual Francisco Amaral teve as primeiras experiências cinematográficas, “as primeiras imagens”. A paixão pela música, apesar “da avó que no início do século XX estudou no conservatório e quase foi maestra”, e apesar da memória “do piano, das folhas de música e das aulas” que lhe dava quando era criança, não se explica pela via dos genes. “Não tenho qualquer formação musical.” Nos tempos em que viveu em Lisboa, sempre que visitava um amigo que tinha um piano, “passava horas a tocar umas coisas que, descobri mais tarde, eram algo parecidas com o que o Brian Eno fez no álbum ‘Music for airports’. Eram umas experiências muito minimalistas. E calmas, também.” O amigo “achava aquilo relaxante”.

A ambiência contemplativa e ensimesmada da “Íntima Fracção”, “agora que há uma certa distância, penso que tem a ver com o facto de ter perdido os meus pais muito jovem, adolescente.” Quando nasceu, o pai, psiquiatra e professor assistente na Universidade de Coimbra, era um preso político. “Prenderam uma série de intelectuais... Foi uma situação muito difícil do ponto de vista familiar, a minha mãe adoeceu gravemente. Penso que é inevitável a influência destes factos na minha vida. A ‘Íntima’ reflecte isso, sem dúvida.” A esperança, tal como a que os horizontes sugerem, “no mar”, a promessa que também se sente na “Íntima Fracção”, estará ligada “às paixões juvenis, o primeiro amor e as primeiras desilusões. São coisas que ficam.” Como a música “God Only Knows”, dos Beach Boys, que serviu de banda-sonora ao primeiro amor. “Essa música passava sempre no ‘Em Órbita’, e quando se aproximava o horário do programa lá ia eu a correr ouvi-la.”

De resto, o “Em Órbita” é um dos antepassados radiofónicos da “Íntima Fracção”, tal como “o ‘W’, um programa de Miguel Esteves Cardoso que durou, creio, apenas três meses, e que tinha um ambiente semelhante, reconheço. São essas as maiores influências.” Quando as emissões do “Em Órbita” se suspenderam “fartei-me de enviar postais para a rádio a protestar”.

A primeira “Íntima Fracção” passou, precisamente, no horário actual, de sábado para domingo, à uma hora da manhã. Depois das primeiras emissões, estranhou o silêncio. “Ninguém dizia nada, não havia reacções.” Até que Miguel Esteves Cardoso, na altura jornalista do “Expresso”, fez publicar um texto onde considerava a “Íntima Fracção” como o melhor programa da rádio portuguesa. A partir daí começaram a chegar cartas, “algumas muito emotivas”, e pessoas “que sistematicamente me procuravam.” Realizado em directo, o primeiro texto a ser lido foi a letra do tema “Transmission”, dos Joy Division, seguido da reprodução da própria música. A letra é um verdadeiro manifesto: “Radio, live transmission/ Listen to the silence, let it ring on/ Eyes, dark grey lenses frightened of the sun/ We would have a fine time living in the night/ Left to blind destruction/ Waiting for our sight.” O indicativo do programa não seria ainda o tema “Mar d’Outubro”, dos Sétima Legião, que só seria editado meses depois, mas sim “um trecho dos Orchestral Manouvers in the Dark, chamado ‘Radio Prague’.” Dessa emissão, de que não guarda registo, recorda que passou “coisas da Laurie Anderson, Tom Verlaine, Brian Eno, David Sylvian, Cocteau Twins...”

As emissões continuaram na RDP até Setembro de 1989, e foram realizadas sempre em directo e semanais. Em Janeiro de 1990 o programa transferiu-se para a TSF, “mantendo-se com o mesmo formato e nome”. De Setembro de 1993 a Setembro de 1996, o programa foi transmitido diariamente, durante duas horas, “o que era cansativo. O ideal seria durar, no formato diário, apenas uma hora.” Sobre as primeira emissões, Francisco reconhece que “o programa era muito encenado”, ainda que “agora também haja uma maneira de dizer, uma certa distância”, a distância suficiente para que se crie o tal imaginário. “Há construção, mas há sinceridade. Não podia ser de outra forma.”

Tal como as músicas, os textos são escolhidos “sensitivamente, por intuição.” Na música, a procura do tal “silêncio da intimidade” ou do “traço azul no futuro incandescente” que se costuma evocar no programa, faz-se nas fontes mais improváveis. Há a inevitável horda de mal-amados, de Leonard Cohen a Tom Waits, passando por Robert Wyatt ou Will Oldham. Mas depois somos surpreendidos pela estranheza das insinuações abstractas da ala electrónica onde se contam, entre outros, Múm, Murcof ou os Kraftwerk. Pelo mambo futurista dos De Phazz ou as paisagens siderais dos The Orb. E as intervenções que Francisco opera nas próprias músicas, que ora são prolongadas, como a versão de dezasseis minutos de “Perfect Day”, de Lou Reed, ora se encurtam, como os inúmeros extractos de canções, de Burt Bacharach aos Pink Floyd.

Como as músicas, também os textos procuram sugerir um tempo “entre a lonjura e o presente, a angústia e a esperança.” Para além de textos próprios, autores como Fernando Pessoa, Jorge Luís Borges, Roland Barthes ou Marguerite Yourcenar são lidos desde sempre. São maioritariamente trechos, às vezes frases, que se repetem ao longo do programa. A história da”Íntima Fracção” também é feita da “relação curiosa” com o escritor João Wiborg, que contactou Francisco Amaral no início do programa e que desde então lhe envia textos. “É uma pessoa muito especial, alguém que sofre imenso. Conhecemo-nos apenas ao fim de doze anos depois do primeiro contacto. Era, e é, muito difícil encontrá-lo, chegar até ele, dado viver completamente afastado de tudo. É um autêntico eremita. Quando nos conhecemos vi como vivia isolado, no vale de uma serra, sem luz, num casebre. Ouvia o programa num rádiozinho de pilhas... Reconheceu-me pela voz. Foi muito emocionante encontrá-lo.”

A ideia de rádio que o programa reflecte, uma rádio “que não é só companhia e que exige disponibilidade”, a procura da “intimidade” possível, é a maior pretensão do programa. Um passo importante dado na aproximação do autor aos ouvintes deu-se quando criou um “blog” (www.intima.blogspot.com). “Achei que havia uma série de coisas, relacionadas com o programa, que podiam estar disponíveis. Depois, a ideia de um ‘blog’ é mais interessante do que a ideia de um ‘site’, que, uma vez explorado, perde interesse. O ‘blog’ vai sendo actualizado diariamente.”

A anunciada reestruturação da TSF e a extinção dos programas mais antigos, tem motivado muitas mensagens de apoio a Francisco Amaral. “Fico comovido porque também já fui ouvinte e sei o que é perder algo que gostamos.” Neste momento, não há nada definitivo. “Em Setembro, a emissão da “Íntima Fracção” pode suspender-se ou simplesmente acabar, na TSF. Aí, terei de procurar outra rádio.”
Quando deixou a RDP, em 1989, a última música que passou foi “Au revoir”, de Maurice Chevalier. Mas era um “uma despedida em jeito de ‘até já’.” Conta que João Wiborg lhe escreveu um texto que “só deve ser lido na última emissão. Ainda nem sequer o abri.”

Até lá, e como se diz às vezes, “no meio da noite”, “a poesia é feita a favor de todos, sobretudo daqueles que não podem compreendê-la.”

Hugo Pinto, Pública, 5 de Outubro de 2003

Quando este artigo foi publicado o futuro da IF na TSF já estava traçado. Mas quando escrevi a situação não era tão definitiva, embora o futuro fosse já assombrado. O ponto de partida do texto era a entrada do programa no seu vigésimo aniversário, data que se cumpre hoje. E cumpre-se porque a IF não acabou num sábado à noite. Continua a ser tão necessária como o era, sempre.
Este artigo pretendia prestar homenagem ao programa e ao seu autor pela excelência. Pretendia também ser uma espécie de foguete lançado para o ar, no meio da noite, à procura de uma reacção. Para que não se esquecessem. Para que a Rádio não deixasse de ser a Rádio.
Porque a IF continua, há que procurar incessantemente o traço azul. E lembrar esse traço. Pintar esse traço.

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Farewell, goodbye

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