<$BlogRSDUrl$>

trato-me por tu


You don't even know me - use your illusion: trato_meportu@hotmail.com

terça-feira, julho 06, 2004

NOVELA PRIVADA

1

“Acha que para se escrever ou, pelo menos, para se escrever bem é necessário ler muito?”
A gravação do programa devia estar a acabar. O relógio digital de horas e minutos vermelhos, algures num canto do estúdio que eu não entrevia, devia indicá-lo. Para além de mim, três convidados, um jovem escritor e dois velhos críticos.
Já tinha respondido a algumas perguntas e ressoava em silêncio a sensação de nada ter dito. O nada que se diz na televisão com a gravidade discursiva de um anúncio. Mas nem isso. Acabrunhava-me nas palavras e respirava de peito feito nas pausas entre elas. Concentrava a minha actuação à força no não dito, no gesto do olhar irónico e trocista. E já estava cansado de troçar da ponderação que a televisão monta nas palavras. Da importância imensa e da absoluta necessidade de aquilo que estava a ser dito ser gravado a letras luminosas que reluzam para sempre. Farto da troça e do objecto da troça.
Quando o programa acabasse podia levantar-me, cumprimentar respeitosamente os meus interlocutores e confidenciar-lhes que o que disseram e o que fizeram escapou aos demais olhares trocistas. Não se preocupem, está tudo bem, muito. No momento devido, quando a câmara estava apontada às vossas bocas, vocês falaram com ritmo. É o vosso, mas é ritmo. E está tudo, tudo bem. Abraços e abraços. Já li. É. Muito bom.
“Pela sua pergunta, diria que para se escrever bem não basta ler muito, tem que se ler bem.” Um risinho perpassou os convidados até chegar ao apresentador. “Mas não, não acho. Ovídio, Cícero ou mesmo Platão não teriam à sua disposição os livros e os autores que temos hoje. Penso, até, que ler dissuade a escrita.”
“Essa é uma ideia interessante que pode ser desenvolvida num outro programa.”
Mais umas frases e apresentou-se o final da emissão de hoje.


2

Ler dissuade a escrita. Penso entretanto que digo cada coisa mais absurda que aquilo que penso que digo. Ler certas coisas motiva a preencher páginas e páginas. Por isso escolho cautelosamente os livros que manuseio. Só me atenho em bestas céleres, como dizia o outro. Só quero livros cujos autores fizeram o obséquio de, exauridas mentes, pensar sem que reste por nós. Que ler seja passar os olhos.


3

O ânimo é um atrevimento, e não há maior atrevimento do que escrever sem ânimo, ou com o espírito estremunhado a fincar-se no bico invisível do sapato invisível da alma invisível. Percebem?

4

Na cama o corpo parece enterrado numa aflição de calor. Olho, sem descarnar demasiado a órbita, a chama que me cobre, e onde temia encontrar o laranja pontificado pelo azul do lume apenas vejo brancura às pregas que são sombras.
As persianas baleadas pela luz que começa a brotar o dia trazem-me evidente a tua ausência. Fecho os olhos e com a língua molho o lábio superior. Encosto o nariz ao que julgo seres tu: um cheiro da tua cor. Estendo o braço num movimento impossível de te alcançar e entrego-me às sombras que o dia trouxe, finalmente.


5

Este silêncio é absurdo. Esta casa parece um navio abandonado por quantos ratos e tripulantes só tendo ficado um comandante moribundo e sem forças para fugir.
Os ratos percorrem agora os túneis da cidade, titubeantes como os tripulantes ébrios que afagam as ruas ainda mais sós que os amores de companhia que o naufrágio arranjou.
Sou suposto ficar do alto deste penhasco a observar tais misérias, esquecendo-me do dever. Que dever?

0 Comments:

Enviar um comentário


M83
Farewell, goodbye

This page is powered by Blogger. Isn't yours?