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quinta-feira, julho 08, 2004

PESSOAS OBLÍQUAS

"Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem achei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem,
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas meu ser.
O que segue não prevendo, o que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: "Fui eu?"
Deus sabe, porque o escreveu."


Fernando Pessoa

Para quem faz da escrita um ofício de prazer e um desassossego, Fernando Pessoa é uma espécie de guru, um espírito que ilumina. Por vezes, a claridade ofusca, como na caverna, mas só porque temos os nossos terrenos olhos fitos na penumbra.
Tal como há pessoas que nunca lerão "O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de la Mancha" ou "Guerra e Paz", por serem clássicos que, mesmo sem se ter lido, parece que já se sabe do que tratam e o que são, também um dia o que se sabe sobre Pessoa´, para uma maioria cada vez mais imensa, será o que está escrito nas contracapas ou nas enciclopédias. Só.
E continuará, tal como acontece hoje, a ser um choque o facto de não haver choque quando se diz: "É um génio." Até que haja outro génio que lhe chame outra coisa, porque génio deixará de ter sido.

Mas o problema não será só de palavras ou de atributos. Talvez os valores e o panteão que se reserva aos deuses também vão sucumbindo.
Talvez os valores se tenham tornado numa propriedade, ou, mais violentamente, tenham sido apropriados sob a derradeira e terrena condição, a humana.

Divago.

Eu é que não imagino (defeito meu, defeito meu) Pessoa como outra qualquer. No seu escritório a traduzir ou onde quer que ele tenha escrito as cartas a Ofélia.

Como ele diz,

"Ninguém, suponho, admite verdadeiramente a existência real de outra pessoa. Pode conceder que essa pessoa seja viva, que sinta e pense como ele; mas haverá sempre um elemento anónimo de diferença, uma desvantagem materializada. Há figuras de tempos idos, imagens espíritos em livros, que são para nós realidades maiores que aquelas indiferenças incarnadas que falam connosco por cima dos balcões, ou nos olham por acaso nos eléctricos, ou nos roçam, transeuntes, no acaso morto das ruas."

No entanto, caro Fernando Pessoa, há figuras de tempos idos, imagens espíritos em livros, que são para nós realidades menores que aquelas indiferenças incarnadas que falam connosco (...)
Comments:
Gosto de fernando Pessoa, já o leio há alguns tempos, uns dias mais do que outros, certas alturas mais que outras. Fascina-me mais o seu heterónimo Álvaro de Campos - excepto as suas Odes) e Bernardo Soares (o livro do Desassossego) mas infelizmente este tipo de leituras, principalmente o último, não considero benéfico para uma futura relação estável, dentro do possível, com o mundo real. Leio-o quando necessito de uma companhia na solidão. Mas também ele produziu o Alberto Caeiro que é o homem que vê luz por tudo que é pedra ou sombra.

Bem também divago.
caso te interesse´o meu blog é www.silenciobranco.blogspot.com (um deles) mas dúvide que lhe capte a atenção....pequenos silêncios em branco.
 
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Gosto de fernando Pessoa, já o leio há alguns tempos, uns dias mais do que outros, certas alturas mais que outras. Fascina-me mais o seu heterónimo Álvaro de Campos - excepto as suas Odes) e Bernardo Soares (o livro do Desassossego) mas infelizmente este tipo de leituras, principalmente o último, não considero benéfico para uma futura relação estável, dentro do possível, com o mundo real. Leio-o quando necessito de uma companhia na solidão. Mas também ele produziu o Alberto Caeiro que é o homem que vê luz por tudo que é pedra ou sombra.

Bem também divago.
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By Blogger Onun, at 8:47 da tarde  

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M83
Farewell, goodbye

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