<$BlogRSDUrl$>

trato-me por tu


You don't even know me - use your illusion: trato_meportu@hotmail.com

terça-feira, fevereiro 22, 2005

EXPLICAÇÃO DE UM BLOGGER

“O assobio dos melros tem isso mesmo de especial: é idêntico a um assobio humano, de alguém que não seja particularmente hábil a assobiar, mas a quem aconteça, de quando em quando, ter um bom motivo para assobiar, e que o faça uma única vez, sem intenção de continuar, e num tom decidido, mas modesto e afável, de modo a granjear-lhe a benevolência de quem o escuta.
Pouco depois, o assobio é repetido – pelo mesmo melro ou pelo seu cônjuge – mas sempre como se fosse a primeira vez que lhe passasse pela mente assobiar; se é um diálogo, então cada deixa chega após uma longa reflexão. Mas será um diálogo ou será que cada melro assobia para si próprio e não para o outro? E, em qualquer dos casos, trata-se de perguntas e respostas (ao outro ou a si próprio) ou trata-se de confirmar alguma coisa (a sua presença, a pertença à espécie, ao sexo, ao território)? Talvez que o valor daquela única palavra resida no facto de ser repetida por um outro bico assobiante, no facto de não ser esquecida durante o intervalo de silêncio.
Ou, então, todo o diálogo consiste em dizer ao outro «eu estou aqui», e o comprimento das pausas junta à frase um significado de «ainda», como que a dizer: «eu ainda estou aqui, continuo a ser eu». E se estivesse na pausa e não no assobio o significado da mensagem? Se fosse no silêncio que os melros falam uns com os outros? (O assobio seria neste caso um mero sinal de pontuação, uma fórmula como «terminado»). Um silêncio aparentemente igual a outro silêncio poderia exprimir cem intenções diferentes; também um assobio, por outro lado; falar-se, calando-se ou assobiando, é sempre possível; o problema é entender-se. Ou então ninguém pode entender ninguém: cada melro pensa ter posto no assobio um significado fundamental para si, mas que só ele próprio entende; o outro responde qualquer coisa que não tem nenhuma relação com aquilo que ele disse; é um diálogo entre surdos, uma conversa sem pés nem cabeça.”


Na infeliz impossibilidade de citar o todo, extracto de “Palomar”, escrito por Italo Calvino.
A ver se percebemos melhor. E mais.

0 Comments:

Enviar um comentário


M83
Farewell, goodbye

This page is powered by Blogger. Isn't yours?